Museo Casapueblo, a alma de Vilaró - Rolê na América
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Museo Casapueblo, a alma de Vilaró

O Museo Casapueblo é um dos lugares mais incríveis em que já estive. Pessoalmente gosto muito, muito mesmo de museus. E talvez por isso esse momento foi o meu favorito em Punta, e também um dos favoritos do Uruguay… Enquanto estou aqui sentada escrevendo isso, fico novamente emocionada e toda arrepiada com o que experienciei lá.

Vou tentar passar um pouco do que sinto a respeito pra vocês. Tarefa nada fácil, pois é tudo incrível, a começar pela história do local: a Casapueblo foi construída pelo artista Carlos Páez Vilaró, incrustada nas pedras na beira do mar de Punta Ballena. Sim… com suas próprias mãos ele foi simplesmente construindo e aumentando, conforme seu desejo e sua inspiração. Cada canto da casa parece transpirar a identidade e a intenção de seu autor.

Intenção que me pareceu brotar de um intenso afeto por Punta Ballena e suas pessoas. Quando você olha a Casapueblo por fora, ela parece repousar, descansar, abraçar a encosta do balneário. Parece tão parte! E ao mesmo tempo integra elementos de sua gente, dos pescadores que ajudaram Vilaró a erguê-la.

É interessante e intrigante de se apreciar essa casa: toda branca e cheia de curvas. Não há pontas, quadrados, retângulos. Ele quis fazê-la curva e cheia de propositais imperfeições e assimetrias… Estranhamento humana. E para cada canto imperfeito e assimétrico que você olhe, há uma surpresa: você vê barcos, rostos, vasos, arcos, torres…

É gigantesco e caótico, mas harmonioso ao mesmo tempo. Agradável de se olhar e de se estar. Você se sente parte, se sente acolhido – é, acho que Vilaró fez isso de propósito e com absoluto sucesso.

O caos harmonioso e belo da Casapueblo

E isso, gente, que nem entramos na Casapueblo ainda.

Ao entrar, seus ouvidos se sentem em casa ao detectarem… música popular brasileira. Sim! Ao longo de todo passeio por dentro do Museu, a música brasileira apareceu várias e várias vezes em diversas vozes diferentes.

Na primeira sala, uma tela exibe a história de Vilaró e da casa repetidamente. Tivemos sorte de pegar praticamente do começo, e ficamos abismados e encantados com a história desse homem. Suas viagens, suas referências, suas relações (de gente simples de sua vizinhança a artistas famosos, como Picasso), suas experiências.

Vilaró varreu o mundo fazendo arte. Escreveu, compôs, esculpiu, pintou.  Conheceu gente, imprimiu essa gente em sua arte. Negros, índios, brancos, gente de toda parte e de toda cor. Artistas, pintores, escritores, músicos, pescadores, operários, agricultores. Brasileiros, africanos, uruguaios, europeus, chilenos. Gente, gente de todo tipo.

Gente essa retratada toda em pé de igualdade e com idêntica relevância e paixão em suas obras, como pudemos conferir ao sairmos dessa sala e caminharmos pelo museo. Paixão explorada em cores fortes, em formatos novamente assimétricos, em traços marcantes.

É tão lindo que me dá vontade de abraçar!

É notável a influência de Picasso, tanto nas formas quanto nas cores. É notável também a presença de suas andanças pelo mundo. E é notável a presença repetida e significativa de mulheres. Sempre em lugar de destaque. Sua força, sua capacidade de gestar, suas expressões diversas. Expostas, nuas muitas vezes, mas não hiperssexualizadas. Eu, mulher, sorri para as mulheres retratadas por Vilaró.

No fim de tudo isso, os visitantes do museu disputam seu lugarzinho no terraço ao fim da tarde: é hora do tão famoso pôr-do-sol na CasaPueblo. E esse é acompanhado de um texto escrito por Vilaró, na voz do mesmo, que tem a exata duração do evento… O sol desaparece simultaneamente às últimas palavras do poema.

Ver o sol se pondo aqui é uma maravilhosa e sensível cerimônia.

Por fim, todos aplaudiram. Eu, com um nó na garganta, contendo choro e riso.

Tua casa é linda, Vilaró!

“Chau, sol…

Gracias por provocarnos una lágrima, al pensar que iluminaste también la vida de nuestros abuelos, de nuestros padres y la de todos los seres queridos que ya no están junto a nosotros, pero que te siguen disfrutando desde otra altura.

Adiós sol…

Mañana te espero otra vez.” 

  • Helena Marcon Ribeiro Lima

    Sobre esse lindo museu, também não dá para deixar de comentar a buscade Vilaro por seu filho no terrivel acidente em 1972 na cordilheira dos Andes. Onde os sobreviventes tiveram que se alimentar dos companheiros mortos. O filho de Vilaro foi um disco 16 sobreviventes!

    • Nikolas Pacheco Müller

      Sim, Helena! Não sabíamos disso antes de visitar o museo, e ficamos espantados tanto com o acontecido quanto com a persistência de Vilaró em encontrar o filho, contra todas as expectativas. É uma história quase inacreditável!!

      • Helena Marcon Ribeiro Lima

        Sou um tantão mais velha que vcs. Até acompanhei o assunto na época, e de lá surgiu minha curiosidade de conhecer a Casa Pueblo. Bjus aos dois e boa viagem !!

  • Juliana Cardoso

    Acho que entendi a sensação da Paula.
    Também adoro Museus e, de certa forma, ele foi um dos grandes motivadores para viajar pro Uruguai…
    Entrar (e estar) nesse lugar é simplesmente mágico! O sol que a gente vê de la parece único, meu Deus!
    Um lugar para ir repetidas vezes porque a sensação é de que sempre será diferente…

    • Paula Camila Schmidlin

      É mágico, mesmo! 😍✨