Nossos primeiros momentos no Chile - Rolê na América
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Nossos primeiros momentos no Chile

ATENÇÃO: o tamanho deste post é proporcional à quantidade de acontecimentos malucos que se seguiram à nossa entrada no Chile. Ou seja… não é pouco. Então, acomode-se na cadeira, pegue sua pipoca e vamos lá.

Parte 1: FELICIDADE AO ACORDARMOS AOS PÉS DOS ANDES

Nossa primeira manhã no Chile foi um momento glorioso: acordamos super bem depois de uma ótima noite de sono (e isso num posto de gasolina); tomamos café da manhã sob o sol e as árvores que abrigaram nosso trailer, na beira de um simpático riacho. A sensação era de imenso alívio e sucesso, pela travessia tão bem sucedida e sem grandes sustos do dia anterior.

Niko degustando um cafezinho em nossa casa aos pés dos Andes

O mais legal desse momento, para nós, é que não tínhamos um destino definido. Sabíamos apenas que dirigiríamos na direção do litoral chileno, pois estávamos com saudades de ver o mar. A sensação era de imensa liberdade.

Então, partimos para a Ruta 5, que corta o Chile de sul a norte. Assim que a alcançamos, paramos num posto de gasolina para ver se descolávamos um Wi-Fi. Já fazia alguns dias que não conseguíamos falar com nossas famílias.
Duas surpresas ruins neste posto, porém.

Parte 2: QUANDO AS COISAS COMEÇAM A DAR ERRADO…

A primeira veio ao descermos do carro e fazermos nossa ronda de sempre pelo conjunto: descobrimos uma micro fissura no engate de reboque (quase insignificante, até meio difícil de enxergar, mas ainda assim, uma fissura). Já andávamos monitorando o local desde que passamos meio rápido num lombada que não vimos, em Mendonza, e quase levantamos vôo com carro e trailer – então, até não foi uma grande surpresa. Ainda assim, um transtorno.

A segunda: entramos na conveniência do posto para utilizar o Wi-Fi. Ao conectar meu celular, recebi mensagens de whatsapp da família sobre o agravamento do quadro de saúde da minha bisavó, que já estava internada há alguns dias. Fiquei muito triste.

Mas tínhamos um problema que tinha de ser resolvido de imediato para não se agravar. Então, rumamos apenas de carro para uma cidade próxima, onde encontramos um local para soldar o engate. Já pedimos para, além de soldar a fissura, colocar reforços dos dois lados.

Voltamos para o posto, pegamos o trailer e seguimos viagem. Algumas horas de viagem depois, paramos para dormir em outro posto mais adiante. Eu continuava bem triste pela minha Bisa e por não estar por perto para ajudar a cuidá-la. Só queria ficar quietinha. E, agora que o problema do engate estava resolvido e que estávamos abrigados para dormir num local seguro, achei que meu momento de sossego havia finalmente chegado.

Parte 3 – RESOLVE UMA COISA, APARECE OUTRA

Só o que me separava do meu momento de sossego e paz era tomar uma ducha para poder me enfiar no conforto da minha casa. Então, após estacionarmos o trailer, fomos tomar banho aproveitando as duchas quentes do próprio posto de gasolina.

Quando voltei… Niko vem me encontrar na porta, me segura pelos ombros e diz que tínhamos um problema: nosso inversor havia queimado.

O inversor é um aparelho que basicamente “pega” a energia da bateria do trailer (12v), converte ela para 220v e distribui para todas as tomadas. Ou seja, é graças a ele que podemos usar nossas coisas, inclusive a geladeira. O nosso inversor, especificamente, também pega a energia da rede externa, quando a gente conecta o cabo em alguma tomada, e usa para carregar a bateria; bem como atua como transformador, de forma que tudo o que usamos no trailer é 220v, mesmo que a energia externa seja 110v. E ele faz isso tudo de forma automática.

Se você não entendeu nada até aqui, saiba apenas que: ele é um aparelho MUITO importante e, por ser um “três em um”, é MUITO caro. Um novo custa 5 mil reais.

Mas, voltando. O trailer havia enchido de fumaça. Deixamos ele todo aberto pra sair o cheiro de queimado. Depois de nos acalmarmos, pesquisamos e encontramos um local há cerca de 300 km dali em que se consertavam Trailers e Motorhomes. Bom, agora tínhamos um destino: o Aventura Jack, numa cidade chamada La Serena.

Problema: era sexta à noite. Não sabíamos se a empresa abriria no sábado. Então, mandamos e-mail naquela noite perguntando se eles poderiam nos receber e ajudar.

Parte 4 – A CADA PROBLEMA QUE TEMOS, CONHECEMOS ALGUÉM MUITO LEGAL

Quem me disse isso foi a Bruna, do Instagram @oamormoraaqui. E nesses dois meses de viagem, já deu pra perceber o quanto isso é verdade.

Na manhã seguinte, o próprio Jack nos respondeu o e-mail dizendo que estava nos esperando. Ufa! Então, levantamos acampamento e partimos para lá. Chegamos no fim da tarde. Jack, um senhor de 76 anos, nos recebeu incrivelmente bem. Super querido, simpático e acolhedor. Logo de cara nos disse que poderíamos acampar ali mesmo até resolvermos o problema, e que ele não cobraria pela nossa estadia. Que um técnico olharia nosso inversor agora. E, enquanto o técnico começou a olhar e trabalhar, ele nos ofereceu um café.

Aceitei – não sou de recusar café – e Jack nos levou à sua casa, nos fundos do local. Chegando lá, descobrimos que xícara de café era eufemismo. Ele nos serviu foi uma vasilha de café. Acompanhada de um delicioso bolo. E de uma bem humorada e interessante conversa.

Jack costumava trabalhar como supervisor em empresas de mineração. Viajou a vários lugares do mundo a trabalho. Ele é canadense, e veio parar no Chile por causa disso. É alguém interessantíssimo de se conversar, cheio de histórias pouco convencionais. E o engraçado era que a conversa flutuava numa mistura de espanhol, português, inglês e até francês (que ele deixa escapar de vez em quando).

Nesse meio tempo, alguém veio nos chamar para conversar com o técnico, que havia terminado sua avaliação inicial. A conclusão era que vários dos componentes do inversor estavam queimados, de modo que o mesmo teria de ser levado a uma empresa especializada na segunda-feira para verificar se era possível consertá-lo.

Compartimento do inversor vazio, caixa de ferramentas, nós dois pesquisando e pensando em soluções para o problema

Jack reforçou que poderíamos acampar ali, bem como apareceu alguns minutos depois com uma sacola contendo frutas, uma garrafa d’água e um pacote de bolachas e perguntando se precisávamos de mais alguma coisa.

Estávamos bem; precisávamos era de uma boa noite de sono. Foi o que tivemos. Ficamos aliviados por estarmos num local seguro, certos de recebermos ajuda e imensamente gratos por sermos tão bem recebidos depois de um dia tão longo.

Parte 5 – LIDANDO COM O LUTO EM MEIO AO CAOS

No dia seguinte, Jack nos chamou para tomar café da manhã com ele. Foi engraçado: a gente tentava parar de comer, mas ele continuava abrindo e servindo comida, dizendo que comêssemos tudo ou ele teria de jogar aos cachorros. Não se joga queijo brie e jamon espanhol aos cachorros, então nós simplesmente ríamos e continuávamos comendo. Terminamos o café da manhã almoçados e jantados também.

Saímos para dar uma volta em La Serena, mas não estávamos muito no clima de fazer turismo. Logo voltamos para o Jack. Quando chegamos, ele nos trouxe uma panela cheia de espaguete à bolonhesa.

Na segunda à tarde, enfim, tivemos um diagnóstico: o engenheiro elétrico confirmou que vários componentes do nosso inversor estavam queimados e que seria muito caro trocar todos. Seria mais barato, ali no Chile, comprar um inversor novo do que arrumar o nosso. Mas aí, o aparelho novo seria apenas inversor, perderíamos as demais funções. Deliberamos junto com ele algumas opções. Mas qualquer outra forma de conserto seria financeiramente inviável. Então, solicitamos esse inversor novo.

Ou seja: trocamos nosso equipamento super completo (inversor + carregador + transformador + conversor) por um simples (apenas inversor), que nos permitiu seguir viagem tendo energia elétrica na geladeira e tomadas.

Foi nesse dia, também, que vencemos a barreira de pedir a senha do Wi-Fi (estávamos com um pouco de vergonha a princípio, mas é impressionante como depois de 3 dias acampando num lugar a gente já se sente em casa).

Abri o whatsapp e fui direto para a janela de conversa com minha mãe… foi assim que descobri que minha bisavó havia falecido. Fiquei arrasada. Esqueci do mundo, do inversor e do motivo de estarmos ali – tudo isso fica tão pequeno nessas horas! E chorei meu luto sem pressa, ao menos, no conforto de um camping no qual me sentia segura. Fiquei olhando fotos dela e contando minhas lembranças ao Nikolas. Foi assim a minha despedida, regada a muito café e muitas, muitas lágrimas.

Mas o mundo não para pra gente se recuperar e, na terça, o técnico veio fazer a instalação do novo inversor. E aí, depois de tudo pronto, veio o susto na “conta” do Jack: 118 mil pesos chilenos (em torno de 180 dólares). Para nós, representa o orçamento de quase uma semana de viagem. Muito mais do que estávamos esperando gastar. Mas não adiantava estresse. Lidamos com isso pois era hora de seguir.

Jack nos disse para descansarmos tranquilos ali mais uma noite e nos convidou para o café da manhã no dia seguinte, antes da partida. Após tomar café com ele (deliciosos waffles com marmelada, jamon espanhol e as costumeiras xícaras enormes de café), nós partimos.

Parte 6 – DESCOBRINDO UMA PRAIA PARADISÍACA E UM DOS MELHORES CAMPINGS DA VIAGEM

Dessa vez tínhamos um destino. Nos sugeriram que conhecêssemos a cidade de Bahia Inglesa, bonita e bom ponto de partida para explorar Copiapó. Nos pareceu uma boa sugestão.

A viagem até lá foi muito tranquila. Quilômetros e quilômetros de deserto. E aí, no meio do desertão, sem mais nem menos, a praia!

Ao avistarmos a água, mais uma surpresa: um mar verdeazulado de doer os olhos e uma areia branquinha. Lindíssimo. E não foi difícil achar o camping Bahia Club: na beira desse mesmo mar, com uma excelente estrutura, muito seguro, os administradores morando em frente e trabalhadores circulando o tempo todo. Preço razoável também, mais barato do que outros campings que havíamos visto no Chile e dentro de nosso orçamento. E o único camping do Chile com água potável nas torneiras.

De pés e quintal na areia branquinha do litoral chileno

 

Excelente para esse momento! As cidades ao redor são super charmozinhas, logo simpatizamos. À noite, teve fogueira, assados e a cerveja mais barata que achamos num mercadinho (uma tal de “Escudo”). Nos permitimos esse momento: tomar uma cervejinha com os pés na areia para comemorar esta noite de sossego. Agora sim, poderíamos começar a curtir o Chile de verdade!

  • Leandrota

    Meus sentimentos da sua bisavó, ela cumpriu a missão dela por aqui. Agora, virou anjo 😇 para cuidar de vocês nessa linda viagem. Pode ter certeza ! Problemas virão, força e garra para superar, porque depois o gosto da vitória será ainda mais maravilhoso e delicioso !!! 🙏✌️😉

    • Paula Camila Schmidlin

      Obrigada, Leandro! 🙏 Com certeza. Tudo isso faz parte da existência… E, no final, saímos mais fortes e cheios de história pra contar. 😊

  • Miguel Maris

    Que aventura!!!!! Viagem sem perrengues não é viagem… rs. Mas, pelo visto, vocês são iluminados, encontrando soluções, mesmo que paliativas, para continuar. No final, tudo se ajeita. Lamento pela tua perda, Paulinha. Tudo tem sua hora.
    Um abraço ao casal!

    • Paula Camila Schmidlin

      Obrigada, Miguel. Realmente, viagem sem perrengue não é viagem, haha. Faz parte. E quanto mais a gente viaja, mais resiliente vai ficando por causa deles. Abraços!

  • Eduardo Pimentel

    Passando aqui só pra falar que vou voltar pra ler com calma – eu ia ler aqui, durante o meu expediente, mas, na primeira frase eu já achei que merecia mais dedicação. Vou fazer a pipoca em casa e começar a leitura! 🙂

    • Paula Camila Schmidlin

      Hahahaha. Esperamos que goste 😍

      • Eduardo Pimentel

        Ameeeeeei. Sério. Que incrível!;;

  • Karin Schmidlin

    Quando imaginei de que forma vocês reagiriam a notícia da morte da Bisa pensei que não há maneira boa ou ruim de dar essa notícia, já que a coisa mais lógica da vida é a morte! E ela teve muitas oportunidades de estar conosco! De ler bons livros e se contar sua história! É assim …. Você escreve a sua! Eu escrevo a minha! E eu preciso ter um capítulo de minha vida aí no Chile! Necessito!!!! Quero!!!! Mereço!!! Espero meu vinho aqui…. Pacientemente!!! E me alegro com o que estão escrevendo!!! Beijo

    • Paula Camila Schmidlin

      E tem razão! Não há jeito certo ou errado, bom ou ruim. Importante é receber a notícia e lidar com ela. Espero que logo, logo você esteja escrevendo sua história aqui no Chile também, mãe 😍❤😘