Pedro de Valdívia – uma “Cidade Fantasma” no meio do deserto do Atacama - Rolê na América
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Pedro de Valdívia – uma “Cidade Fantasma” no meio do deserto do Atacama

Em nosso caminho do litoral chileno para a cidade de San Pedro de Atacama, paramos para espiar um lugarzinho muito peculiar: a cidade de Pedro de Valdívia. O motivo de dedicarmos um dia de nossa rota a uma cidade qualquer no meio do deserto? É que essa não é uma cidade qualquer…

Pedro de Valdívia é uma cidade inabitada. Suas construções estão todas lá: casas, escolas, hospital, teatro, cinema, igreja. Embora cheias de poeira, muitas delas ainda estão inteiras e até mantém os objetos que a compuseram. Mas simplesmente não há ninguém morando lá. A população deixou o local para trás.

Quando chegamos, éramos os únicos visitantes. Nos deparamos inicialmente com um campo de futebol relativamente grande, uma praça e o portal da cidade. Nos aproximamos do portal e lemos o que dizia a placa: “Municipalidad de Maria Elena, 1931 – 1996”. Arrepio na espinha! Eis uma cidade com data de nascimento e de morte.

Ultrapassamos o portal e nos vimos caminhando sozinhos por uma cidade completamente deserta. Aquela era a avenida principal… Contemplamos suas casas, entramos em uma delas. Um sofá abandonado, coisas largadas pelo chão. Avançando mais um pouco e olhando à nossa esquerda, avistamos uma construção digna de filme de terror: ao fim de uma rua lateral, um portão de ferro entreaberto, árvores peladas de folhas.

Chegando perto descobrimos rapidamente o que era, lendo a fachada: uma escola. O portão de ferro estava cadeado; porém, não foi difícil descobrir uma entrada lateral. Ali estava um pátio de escola típico, com uma quadra de esportes. Entrando, encontramos salas de aula… carteiras de madeira antigas, quadro negro, livros abertos no chão.

Saímos da escola, voltamos para a avenida principal e continuamos caminhando. Tínhamos uma certa impressão, ao olhar as casas, de que havia existido uma hierarquia ali. Algumas casas pareciam ter sido melhor estruturadas, maiores… Outras, em outra parte mais adiante, pareciam ter sido menores, mais próximas umas às outras. Estávamos nessa quando ouvimos uma voz. Nos entreolhamos desconfiados, olhamos ao redor: nada. Mais uma vez a voz. E eis que surge, atrás de uma esquina, um rapaz.

Esse rapaz se apresentou como guia turístico do local. E ele mesmo acrescentou em seguida: “nascido e criado em Pedro de Valdívia!”. Ele nos disse que, se quiséssemos, ele abriria o portão para explorarmos de carro. Ficaria mais fácil, já que a cidade é grande para ser percorrida a pé sob o sol do deserto…

Ele nos acompanhou no restante do passeio. Nos levou para conhecer uma parte da cidade bem diferente dessa que vimos inicialmente. Agora, vimos casas mais retiradas, bem maiores que as anteriores, com quintais grandes. Uma outra escola, um pouco menor. Uma igreja super bem conservada onde, contou ele, ainda ocorrem alguns tipos específicos de eventos.

Um hospital! Percorremos seus corredores, que outrora abrigaram salas de emergência, salas de cirurgia, quartos, maternidades… A sala de RX ainda abrigava todo seu equipamento. Inclusive diversas chapas estavam espalhadas pelo balcão e pelo chão. Havia prontuários na maternidade! O guia colocou um deles em minhas mãos, que folheei, fascinada.

Ele contou que, quando percorre os corredores da maternidade, à noite, ouve-se o choro de crianças. Perguntamos a ele se não tinha medo. “Não mais”, respondeu ele, “tinha apenas quando estava vivo”. Hahaha

Brincadeiras à parte, a cidade surgiu com a chegada de operários das minas de extração de salitre, numa época em que 75% das exportações do Chile eram provenientes desta atividade. Ela foi crescendo para comportar essa população e oferecer estrutura à ela. Em seu auge, 11 mil pessoas moraram em Pedro de Valdívia. A coisa começou a complicar quando a Alemanha descobriu o salitre artificial… Ainda assim, a fábrica foi mantida. Mas em 96, confirmou-se que a manipulação incorreta do salitre contaminou a região – aí, ela teve realmente de ser abandonada.

Nós adoramos o passeio, achamos fascinante. É intrigante olhar para essa cidade e tentar imaginá-la ativa, cheia de gente, com uma cultura local própria, com seus costumes e hábitos… e também é engraçado perceber como nós, como seres humanos, nos atemorizamos do vazio, do passado e do que não conhecemos.

  • Sonia Pacheco Müller

    uau… Que sinistro. “fantasmas não existem, mas assustam”.

    • Paula Camila Schmidlin

      É… bem isso!!

  • Karin Schmidlin

    Kkkkkk muito divertido esse texto! Que lugar peculiar! Nós nós fixamos pensamos que o insano é abandonar quando as coisas mudam! Mas acho que os insanos somos nós que os fixamos! Não esses que abrem mão …. vao e vem! Adorei essa história!

    • Paula Camila Schmidlin

      Verdade! É uma das várias reflexões possíveis sobre esse lugar…