Ser médica recém-formada e largar tudo - pode isso, produção? - Rolê na América
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Ser médica recém-formada e largar tudo – pode isso, produção?

ATENÇÃO: esse post foi escrito com base na minha experiência de vida. Claro. Não estou escrevendo sobre todos os médicos do mundo, estou escrevendo sobre mim, Paula.

Médicos, definitivamente, não são criados para “largar tudo” e fazer algo descomprometido com suas carreiras. Embora ainda não tenha acontecido, eu não ficarei surpresa se for criticada por colegas de profissão por estar fazendo isso.

Não é difícil entender o motivo.

Pra começar, o processo de entrar na faculdade é doloroso. Anos de cursinho e incertezas. Eu estudava o dia todo e morria de medo de não conseguir entrar na faculdade mesmo assim. Aí, quando você vê seu nome na lista de aprovados, você agarra aquilo com a sua vida.

A competitividade já começa no cursinho, mas entrando na faculdade ela só tende a piorar. Encontrei um ambiente em que se é medido pelas notas mais altas, maior desempenho, e em que se valoriza viver basicamente para a medicina. Você deve viver quase que exclusivamente pra isso. A medicina tem de estar no centro da sua vida. Você chega a ser criticado caso queira se dedicar a outras coisas na vida, ou caso não passe suas férias fazendo estágios e/ou pesquisas.

Se você não toma cuidado, logo, logo é engolido por isso. Você só fala de medicina, só estuda, só sai com as pessoas do seu curso, larga os hobbies que tinha antes. Tudo é a faculdade, a faculdade, a faculdade. As notas. As decorebas pra passar. Eu saia com amigos de fora do curso e não raro sentia dificuldades em conversar sobre outros assuntos. Me sentia uma alienada… (e, acho, era mesmo).

Chegando mais próxima ao fim do curso, vendo o que a faculdade fez com a minha vida emocional, resolvi que não dava pra ficar desse jeito. Que o ambiente era emocionalmente tóxico, e tinha me transformado numa pessoa ansiosa, obsessiva e que não admitia os próprios erros de jeito nenhum. Quando você vê, já está agindo como se não precisasse dormir, comer, ir ao banheiro ou beber água, como todos os seres humanos.

Depois da formatura, indo para a vida profissional, sentindo o peso da responsabilidade sobre os ombros, o sofrimento emocional continuou até culminar numa crise de pânico. Durante o tratamento, descobri que não é tão raro assim de esse tipo de coisa acontecer. Mas ninguém fala sobre isso, por vergonha. Médico não pode sofrer.

Se não precisa dormir, comer, beber água e ao mesmo tempo tem de sempre saber tudo o tempo todo e também não pode cometer erros, você deve ser o quê? Uma espécie de deus, certo?

Eu decidi que não estava muito a fim de ser uma espécie de deus. Achei, também, que me faria melhor ser apenas uma pessoa. Me parecia uma opção mais saudável emocionalmente.

E foi assim que eu decidi que não tinha nada de errado eu adiar a residência um pouquinho, em deixar a carreira ali no canto um pouquinho e ir viajar, viver, ser humana e pisar fora da linha.

Eu amo minha profissão, quero fazer minha residência em psiquiatria voltando da viagem, continuarei me esforçando por isso como sempre fiz. Mas eu me amo mais e preciso reencontrar mais equilíbrios. Além disso, vale aquela máxima “para cuidar de alguém você precisa, antes de tudo, estar bem”.

E eu quero ser feliz, que a vida é uma só.

 

  • Eduardo Sena

    Inspirador e encorajador seu relato é (vixi !!, falei igual ao Mestre Yoda). Não sou médico, mas convivo com profissionais da saúde. São “deuses” com os mesmos problemas dos meros mortais (como eu), que dificilmente admitem suas falhas/inseguranças. Com certeza a sua atual escolha trará reflexos na sua profissão, afinal de contas todos somos seres inacabados em um constante processo de construção, desde aquele momento em que os gametas (feminino e masculino) se encontraram. Como eu gosto de ler relatos e histórias de mortais, vou acompanhar a saga de vocês, na esperança de convencer a minha esposa a fazer o mesmo
    um abraço!!

    • Eduardo Sena, muito legal ter recebido teu comentário… Acho que foi um dos comentários que mais me marcou no blog até agora! Também acredito que essa escolha/experiência vai acrescentar muito na minha vida e, consequentemente, na minha profissão. Olhar o mundo com outros olhos, viver coisas diferentes, conhecer gente diferente. Ficaremos muito felizes de ter vocês nos acompanhando! Um abraço