A tão esperada travessia dos Andes - Rolê na América
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A tão esperada travessia dos Andes

Acordamos cedo em Uspallata, cidade encostada nos Andes, numa quinta-feira. Havíamos passado a noite no estacionamento de um pequeno museu. Ficamos inicialmente encantados com nosso free camping, com sua bela vista para os Andes e um lindo entardecer que curtimos tomando um chimarrão. Porém, a noite foi difícil: o fortíssimo vento nos acordou às três da manhã, chacoalhando o trailer e fazendo muito barulho. E ficou assim até o sol reaparecer.

Foi após essa noite meio conturbada que levantamos super cedo para passar o dia na estrada. A distância não é tão grande: são cerca de 100 quilômetros até a primeira cidade do lado chileno. Mas eram muitas emoções envolvidas: não é brincadeira subir 4000 metros de altitude rebocando um trailer e com neve para todo lado. No meio disso, encarar a burocracia de uma aduana, que sempre causa um pouco de ansiedade.

Mas a verdade é que a ansiedade foi se dissipando nos primeiros quilômetros. A subida não é íngreme; é longa e relativamente suave. E, além disso, a paisagem é algo surreal. Difícil explicar essas montanhas, sua grandiosidade, sua proporção. Faz a gente se sentir tão pequeno! E, sim, ao chegarmos perto do topo, lá estava ela… a neve, a cada quilômetro mais espessa e em maior quantidade.

Lá em cima, a temperatura era negativa e a paisagem, branca. Paramos no Parque do Aconcágua, onde fizemos nosso almoço e vimos pessoas praticando esportes na neve. Foi um pouco depois dali, depois de seguirmos viagem, que nos encontramos com uma fila gigantesca de carros. Descobrimos em seguida que era uma fila para estacionar na aduada chilena. E ela estava andando bem devagar…

A princípio, não nos incomodamos. Pelo contrário, foi até legal poder descer do carro, esticar as pernas, tirar várias fotos do carro e do trailer naquela paisagem tão fora da nossa realidade. Mas as horas foram passando.

Nosso conjunto encarando a fila e a neve

Sim: horas. No plural. Levou quase três para chegar nossa vez de estacionar na aduana. Meio cansados e já preocupados em conseguir fazer a descida dos Andes (os famosos Caracoles) ainda de dia, entramos na fila da aduana em si.

Nela, foram mais duas horas em pé até conseguirmos apresentar nossos documentos, carimbar os passaportes e levar o carro para revista. No total, foram 5 horas de espera e ainda tínhamos de enfrentar o trecho que mais nos preocupava: a íngreme descida.

Nós a começamos lá pelas cinco e meia da tarde, e o sol costuma sumir ali pelas sete. Lá fomos nós. Fizemos a primeira parte da descida, encostamos logo no primeiro refúgio para conferir o conjunto, os freios e tirar fotos (dicas do Dardo, que já conhecia o local e nos fez essas recomendações). Demos um tempo por ali, uma respirada, e seguimos.

Nos primeiros degraus dos “Caracoles”

A descida inicial é realmente íngreme, com mais de vinte curvas de 180° que, vistas em sua totalidade, parecem uma gigantesca escadaria. Mas não demora para tudo ir ficando mais suave e tranquilo. Assim também ficamos. Quase escurecendo, paramos no primeiro posto COPEC que encontramos. Ali, o frentista nos deixou ficar sob umas árvores, na beira de um riacho.     Aliviados e cansados, tivemos uma noite maravilhosa de sono neste local. No dia seguinte, a felicidade mal cabia em nós: o Chile era todo nosso.

A verdade é que a travessia é muito tranquila. Já passamos apertos muito maiores com esse trailer do que os Andes, de verdade. Achamos a estrada boa, bem sinalizada, segura e nem de perto tão íngreme ou difícil quanto esperávamos. A paisagem é lindíssima. A parte mais chata é realmente a aduana, então fica nossa recomendação: fuja das vacaciones ou saia antes do sol dar o ar de sua graça. 😉

  • Sonia Pacheco Müller

    Uau… Lindo texto, parece que eu estava lá junto.

    • Nikolas Pacheco Müller

      Obrigada!! Ficamos bem felizes em saber… Esse é o objetivo. Hehehe

  • Karin Schmidlin

    Nossa quantas emoções queridos!!! A redação está tão boa que dá pra sentir cada momento hehe! Muito legal! Na volta quero ouvir isso regado a 🍷! Viagem em paz!

    • Nikolas Pacheco Müller

      (Paula comentando aqui hehe) Obrigada, Mani!! 😀 Estou me dedicando e recebendo muitas dicas do marido redator. hahahaha Pode deixar…

  • Miguel Maris

    Nikolas e Paula, mais um belo relato. O que são cinco horas perto do prazer de se estar conquistando metas tão desejadas? Já havia lido alguma coisa sobre os ventos nesta região. Se cuidem e aproveitem. Abraços!

    • Nikolas Pacheco Müller

      Verdade, Miguel! É meio chato na hora, mas diante de tudo o que vivemos depois, logo a gente até esquece.. heheh Abraços!

  • AAPB ASSOCIACAO

    Estarei fazendo esse caminho dentro de uns 10 dias de motorhome..na aduana sao muito exigentes?

    • Nikolas Pacheco Müller

      A aduana chilena é a mais chatinha que passamos até agora. 🙁 Na parte da documentação, o nível de exigência é bem padrão em todas as aduanas (pedem apenas os clássicos: passaporte ou identidade, documentos do carro e do trailer). Mas eles foram os únicos até agora a realmente revistar o carro e o trailer, coisa que não aconteceu nem no Uruguai, nem na Argentina. E com a gente eles ainda explicaram que estavam sendo rápidos por peculiaridades daquele dia, mas conhecemos gente que, na revista, teve de tirar tudo de dentro do carro. Eles também tem cães farejadores a postos. Mas quem não deve não teme, e quando você está com tudo em ordem é só questão de precisar ter um pouco mais de paciência mesmo 🙂 hehe