vamos falar sobre privilégios - Rolê na América
Rolê na América

vamos falar sobre privilégios

Daí que andou circulando, esses dias, um texto falando da geração que “encontrou a felicidade pedindo demissão”(achei excelente, por sinal). E, em seguida, veio um texto resposta criticando esse primeiro e essa geração, a que pede demissão pra viajar o mundo, já que não é a realidade da maior parte dos jovens do país (na internet é assim, né?).

Eu vou tentar fazer uma análise disso tudo. Já peço desculpas se não for bem sucedida.

Nos esforcemos para olhar pelos dois ângulos. Mas vou ter de tomar como base, é claro, a minha própria vivência, que é onde tenho mais conhecimento de causa.

Eu sou uma pessoa privilegiada. Seria desonesto não admitir isso. Nem sempre a situação financeira da minha família foi boa, na verdade, mas sempre foi o suficiente para as necessidades básicas de todos. Desde a infância recebi estímulos para estudar, ter uma profissão e pensar no meu futuro. Meus pais me deram asas para sonhar alto e condições para que eu pudesse realizar o que eu sonhava.

Não foi naaaaada fácil pra eles me manter durante a faculdade. E também, é claro, eu tenho meus méritos: estudei, deixei de aproveitar muito final de semana nessa vida, e hoje em dia tenho uma profissão incrível.

Em suma: tenho alguns méritos, bem como meus pais tem os méritos deles, bem como meus avós também tiveram. Cada geração se esforçou pela seguinte e hoje estamos onde estamos. MAS: isso não é só questão de mérito. Cada geração tem de admitir que se esforçou por ter sido educada para isso. E por ter recebido algum tipo de condição para isso.

Eu, bem assim como sou, igualzinha, se tivesse crescido em outro ambiente, poderia ter tido um futuro completamente diferente. E, se a gente for falar de mérito puramente, a coisa fica bem desproporcional. Eu fiquei finais de semana inteiros estudando? Aham. Mas há quem passe fome, há quem não tenha finais de semana nunca, há quem aceite condições de trabalho completamente insalubres simplesmente pra sobreviver, há quem viva sob trabalho escravo ainda hoje em dia, há quem não tenha condições mínimas de dignidade. São realidades que não tem comparação. Se fosse uma questão de quem se esforça mais, trabalha mais, ou uma questão de justiça, certamente o mundo não seria como é.

Da mesma forma como posso me orgulhar por ter estudado muito, também tenho de ter a humildade de reconhecer que só estou onde estou pois tenhos MUITOS privilégios. Privilégios que a maior parte das pessoas da minha idade NÃO TEVE.

E, agora, tenho essa opção, essa escolha pra fazer: me matar de trabalhar para acumular coisas e dinheiro? Viajar? Essa opção que a maior parte das pessoas não tem. Eu sei que elas não tem. E que elas não tem por esse capricho do destino, de me fazer nascer nas condições em que nasci e ter feito ela nascer em outras, muito mais hostis.

Mas, enfim. Como eu tenho essa escolha, estou escolhendo viajar ao invés de acumular coisas e dinheiro. Muitas pessoas tem feito isso. Muitas pessoas PRIVILEGIADAS tem feito isso. Mas, na verdade, eu não consigo enxergar como isso pode ser um problema! Viajar engrandece a alma, abre a mente. Que excelente que cada vez mais jovens de classe média estão optanto por isso. É provável que isso só os torne mais empáticos e com uma visão mais ampla de mundo.

Agora: o ques não podemos fazer é achar que por isso somos seres superiores, iluminados, evoluídos, que todo mundo tem de ser igual e que quem não faz o mesmo só não faz por não querer fazer. Ou por não ter méritos suficientes, por não se esforçar ou sei lá o que.

Como sempre: o negócio é não julgar. Todo ser humano nessa vida tem uma história pra contar. Todo mundo tem contextos, e geralmente quando a gente se permite conhecer o contexto do outro, a gente entende aquela pessoa. A intolerância é fruto da incompreensão.

Bom. Então voltemos: realmente, a maioria das pessoas não tem essa opção. É trabalhar ou trabalhar. Fim. Não existe isso de largar uma vidinha confortável pra passear e viver experiências. Ganha-se para sobreviver e olhe lá. E essa é uma realidade que eu não conheço. E isso não é justo. A vida não é justa.

Certo. Tenho privilégios. Reconheço e admito. O que faço com isso? Me sinto culpada? Me ressinto? Julgo as pessoas pra me sentir melhor comigo mesma, pra poder sentir orgulho do que tenho, pra não precisar sofrer sendo sensível à dor dos outros? Me escondo na minha bolha? Vendo tudo o que tenho e entrego, e aí fica todo mundo sem nada no fim das contas?

Hm… E que tal se: eu reconhecer meus privilégios; também admitir que tenho o direito de fazer escolhas na minha vida e o dever de enfrentar as consequências;  bem como compreender as pessoas e seus contextos e ajudar elas DE VERDADE sempre que puder, da forma que me couber? Que tal se eu viver a minha vida E TAMBÉM dividir o que puder, ao mesmo tempo?

Eu prefiro, escolho e vivo essa última opção.

Mas vai de cada um. O negócio é não julgar.